Por Elaine Maia Palmieri, Pesquisadora do NUPEC
A oralidade ocupa lugar central na formação cultural da Amazônia paraense. Por meio dela, saberes, memórias, modos de vida, cosmologias e práticas sociais foram historicamente transmitidos entre povos originários, comunidades ribeirinhas, populações negras, caboclas e demais grupos que constituem a diversidade sociocultural da região. Com a colonização europeia, a imposição da língua portuguesa e, posteriormente, a expansão dos meios de comunicação de massa, como o jornal, o rádio e a televisão, essas formas de comunicação passaram por intensas transformações, sem, contudo, perder sua força simbólica na vida social amazônica
No século XXI, com a consolidação da internet e das redes sociais, a cultura paraense passa a circular em novos territórios comunicacionais. A cibercultura não substitui a oralidade, mas cria outras mediações para sua permanência, atualização e difusão. Expressões regionais, narrativas cotidianas, modos de falar, humor, memórias coletivas e referências ao território ganham visibilidade em plataformas digitais, produzindo novas formas de pertencimento e reconhecimento cultural.
A pesquisa analisou perfis do Instagram voltados à cultura amazônida paraense, como @oosribeirinhos e @tradutorparaense, a partir de revisão bibliográfica e observação netnográfica de postagens publicadas nos meses de março e abril de 2026. Foram observados aspectos como linguagem, representações culturais, usos do humor, repertórios identitários e formas de interação dos seguidores.
Os resultados preliminares indicam que as redes sociais têm funcionado como espaços relevantes de valorização da identidade paraense e de reinvenção da oralidade amazônica. As postagens analisadas mobilizam expressões regionais e experiências do cotidiano como formas de afirmação cultural, ao mesmo tempo em que tensionam representações estereotipadas sobre a Amazônia. Nesse processo, o ambiente digital amplia a circulação da cultura paraense para além das fronteiras regionais, favorecendo novas formas de visibilidade pública.
Ainda que persistam desigualdades socioespaciais no acesso às tecnologias de comunicação, a presença da oralidade amazônica nas redes sociais revela que a cultura paraense não apenas resiste: ela se transforma, se atualiza e se projeta no ciberespaço como prática viva de memória, identidade e pertencimento.

🇧🇷 A cibercultura desenvolve outras mediações para a permanência, atualização e difusão da oralidade. Na cultura amazônica, fortemente conectada às tradições orais, percebe-se isso por meio das redes sociais, como o Instagram. Perfis como @oosribeirinhos e @tradutorparaense revelam que plataformas digitais podem valorizar a identidade paraense, reinventar a oralidade amazônica, ampliar a circulação da cultura para além das fronteiras regionais e resistir à exclusão digital.
🇬🇧 Cyberculture develops other mediations for the permanence, updating, and dissemination of orality. In Amazonian culture, strongly connected to oral traditions, this is perceived through social networks, such as Instagram. Profiles like @oosribeirinhos and @tradutorparaense reveal that digital platforms can value the identity of Pará, reinvent Amazonian orality, expand the circulation of culture beyond regional borders, and resist digital exclusion.
🇪🇸 La cibercultura desarrolla otras mediaciones para la permanencia, actualización y difusión de la oralidad. En la cultura amazónica, fuertemente ligada a las tradiciones orales, esto se percibe a través de redes sociales como Instagram. Perfiles como @oosribeirinhos y @tradutorparaense revelan que las plataformas digitales pueden valorar la identidad de Pará, reinventar la oralidad amazónica, ampliar la circulación cultural más allá de las fronteras regionales y resistir la exclusión digital.
🇨🇳 网络文化发展出其他媒介,以维系、更新和传播口述传统。在与口头传统紧密相连的亚马逊文化中,这一点体现在Instagram等社交网络上。像@oosribeirinhos和@tradutorparaense这样的账号表明,数字平台能够重视帕拉州的身份认同,重塑亚马逊口述传统,将文化传播扩展到区域边界之外,并抵制数字排斥。
REFERÊNCIAS
ONG, Walter J. Oralidade e cultura escrita: a tecnologização da palavra. Campinas: Papirus, 1998.
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009.
FRAGOSO, Suely; RECUERO, Raquel; AMARAL, Adriana. Métodos de pesquisa para internet. Porto Alegre: Sulina, 2011.
DIAS, João Thiago. “Dicionário paraense” viraliza nas redes sociais com expressões bem-humoradas. O Liberal, Belém, 16 nov. 2019.
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Publicado em 14 de mai. de 2026 por Anaís Gusmão – Ascom/NUPEC






