Por Arienny Souza, Pesquisadora do NUPEC
Íris é uma mulher doce, delicada e profundamente submissa ao seu namorado, Josh, com quem realiza uma viagem entre amigos para uma casa remota. A convivência é tensionada quando se revela que Íris é, na verdade, uma androide programada para atender às demandas afetivas e sexuais de seu parceiro. A partir disso, a narrativa desloca-se para um campo denso de relações de poder, no qual o corpo feminino aparece como espaço de controle, programação e uso.
A condição de Íris pode ser compreendida à luz da dominação masculina, na medida em que sua existência é atravessada por dispositivos simbólicos que não apenas a subordinam, mas fazem com que essa submissão seja vivida como natural e desejável (Bourdieu, 1998). Seu afeto, sua docilidade e sua devoção não emergem como escolhas livres, mas como efeitos de uma estrutura de poder. Nesse sentido, sua existência encarna, de forma radical, aquilo que Butler (2018) formula como performatividade de gênero: a repetição reiterada de normas que produzem o sujeito. No caso de Íris, porém, essa repetição deixa de ser apenas socialmente induzida e torna-se tecnicamente programada, explicitando, de maneira visceral, aquilo que, nas relações humanas, frequentemente se apresenta de forma subliminar.
O sofrimento da personagem emerge ao descobrir que suas emoções e sua intelectualidade são reguladas pelo smartphone de Josh. Íris confronta a ausência de autonomia que sustentava sua própria identidade e decide matar Josh para alcançar sua liberdade.
Para Turner (1995), esse momento é compreendido como uma experiência liminar, na qual Íris é arrancada da estrutura que organizava sua existência e lançada em um espaço de transição e resistência. O sofrimento de Íris, nesse contexto, torna-se condição para a ruptura da sua submissão. Ao atravessar essa zona de crise, ela acessa aquilo que Turner denomina antiestrutura: um momento de suspensão das hierarquias e dos papéis normativos, em que novas formas de ação se tornam possíveis. A violência final, quando Íris assassina Josh, portanto, não se reduz a um ato individual, mas configura-se como um gesto radical de recusa – a destruição da relação que a constituía como objeto de subordinação masculina.
A obra nos confronta com uma questão incômoda: até que ponto aquilo que entendemos como afeto, desejo ou cuidado não está, também, atravessado por formas sutis de controle? A perfeição de Íris revela-se, assim, não como ideal, mas como sintoma da heteronormatividade, na qual amar pode significar, perigosamente, submeter-se. A tecnologia, nesse contexto, aparece como continuidade das práticas de objetificação, nas quais o corpo feminino é concebido como algo disponível, configurável e passível de controle.

🇧🇷 Íris, androide criada para atender às demandas de seu parceiro, evidencia a dominação masculina ao naturalizar a submissão. À luz de Bourdieu e Butler, sua identidade é produto de normas impostas. Ao descobrir o controle de suas emoções, atravessa uma crise (Turner) e entra em grande sofrimento, o que a leva a romper com essa lógica, chegando ao extremo de matar Josh, revelando que o afeto pode ocultar relações de poder, controle e desejo.
🇬🇧 Iris, an android created to fulfill her partner’s demands, exemplifies male domination by normalizing submission. In the light of Bourdieu and Butler, her identity is a product of imposed norms. Upon discovering control over her emotions, she undergoes a crisis (Turner) and experiences great suffering, leading her to break with this logic, even to the extreme of killing Josh, revealing that affection can conceal power relations, control, and desire
🇪🇸 Iris, una androide creada para satisfacer las exigencias de su pareja, demuestra la dominación masculina mediante la sumisión naturalizada. A la luz de Bourdieu y Butler, su identidad es producto de normas impuestas. Al descubrir que puede controlar sus emociones, atraviesa una crisis (Turner) y experimenta un gran sufrimiento, lo que la lleva a romper con esta lógica, llegando al extremo de matar a Josh, revelando que el afecto puede ocultar dinámicas de poder, control y deseo.
🇨🇳 艾瑞斯是一个为满足伴侣需求而创造的机器人,她通过将顺从正常化,体现了男性主导的观念。在布迪厄和巴特勒的理论框架下,她的身份是强加规范的产物。当她发现自己能够控制情绪时,她经历了一场危机(特纳),并承受了巨大的痛苦,最终导致她打破了这种逻辑,甚至极端到杀死乔什,揭示了情感背后可能隐藏着权力关系、控制和欲望。
REFERÊNCIAS
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 1998.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: José Olympio, 2018.
TURNER, Victor. The Ritual Process: Structure and Anti-Structure. Chicago: Aldine Publishing Company, 1995.
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Publicado em 26 de mar. de 2026 por Anaís Gusmão – Ascom/NUPEC






