Guerra e Tecnologia

Publicado por:

Abimael Souza, Gerenciador de Mídias do LABTEC

A fusão entre guerra e tecnologia redefine a geografia da violência no século XXI. O conflito deixa de ser uma disputa puramente territorial para dominar um “espaço de batalha” híbrido, onde a vigilância é onipresente. A recente guerra na Ucrânia materializa essa ruptura: o uso massivo de drones FPV e satélites comerciais dissolveu a distinção clássica entre front e retaguarda, validando a tese do geógrafo Derek Gregory sobre a “guerra em todo lugar”. Para ele, essa tecnologia instaura uma “intimidade scópica”: permite-se visualizar o inimigo com detalhes voyeurísticos em tempo real, mas executá-lo de uma distância física absoluta, transformando áreas civis em meras zonas de abate digitalizadas (GREGORY, 2011).

Essa mediação por telas gera uma dissociação psíquica perigosa. Ao converter a morte em coordenadas e pixels, o operador vivencia a “mentalidade PlayStation” descrita por P. W. Singer. A desconexão emocional reduz o freio moral para o uso da força, tornando a violência uma experiência sanitizada e burocrática para o agressor, embora continue brutal e visceral para a vítima em solo (SINGER, 2009).

O risco existencial culmina na delegação estratégica à Inteligência Artificial. Como alerta Kissinger, confiar decisões letais a algoritmos de “caixa preta” remove a agência humana e acelera o conflito para além da capacidade diplomática de contenção (KISSINGER et al., 2021).

Em suma, a tecnificação não “civiliza” a guerra; ela apenas esconde o peso moral da decisão de matar sob camadas de eficiência algorítmica. O perigo final não é apenas a autonomia das máquinas, mas a indiferença programada que elas permitem aos homens, tornando a destruição tecnicamente perfeita, mas eticamente vazia.

🇬🇧 Technology is reshaping warfare in the 21st century, dissolving the notions of “front” and “rear” through the use of drones with first-person view and commercial satellites, breaking down territorial and moral barriers and facilitating so-called digital takedowns. These technologies allow one to see the enemy from kilometers away, generating emotional disconnection from violence, reducing the moral restraint on the use of force, making destruction technically perfect but ethically empty.


🇪🇸 La tecnología está transformando la guerra en el siglo XXI, desvaneciendo las nociones de “frente” y “retaguardia” mediante el uso de drones con vista en primera persona y satélites comerciales, derribando barreras territoriales y morales y facilitando los llamados derribos digitales. Estas tecnologías permiten ver al enemigo a kilómetros de distancia, generando una desconexión emocional con la violencia, reduciendo la restricción moral en el uso de la fuerza y ​​haciendo que la destrucción sea técnicamente perfecta, pero éticamente vacía.

🇨🇳 科技正在重塑21世纪的战争,无人机和商用卫星等第一人称视角技术的应用,打破了“前线”和“后方”的界限,瓦解了领土和道德壁垒,并促成了所谓的“数字化打击”。这些技术使人们能够从数公里之外看到敌人,导致人们在情感上与暴力脱节,削弱了使用武力的道德约束,使得破坏在技术上完美无缺,但在伦理上却毫无意义。

Referências:

GREGORY, D. From a View to a Kill: Drones and Late Modern War. Theory, Culture & Society, v. 28, 2011.

KISSINGER, H.; SCHMIDT, E.; HUTTENLOCHER, D. A Era da Inteligência Artificial. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

SINGER, P. W. Wired for War. New York: Penguin Books, 2009.

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